“A Lagoa Dourada, O Rio do Sono: se resolve em sangue a sede de ouro.

Os corpos no campo. Para o pasto das feras. Passados à espada

Acoroazes. Pimenteiras. Gueguezes

Raça extinta, lembrança extinta, nomes, nações apagados no próprio sangue.”

H. Dobal – “El Matador”

 

“The golden lagoon, the River of Sleep: the golden ambition is resolved in blood.

The bodies on the field. To the banquet of the beasts. Killed by sword

Acoroazes. Pimenteiras. Gueguezes

An extinct race, an extinct memory, names, entire nations drowned in their own blood.”

H. Dobal – “El Matador”

 

O Piauí é um Estado muito grande, o terceiro maior do Nordeste, com mais de 250 mil km² (maior que o Reino Unido), possuindo diversas paisagens naturais em seu território. Entre elas, destacam-se o cerrado do extremo sul, a caatinga do semi-árido e os manguezais do litoral. O Meio-Norte é uma área de transição entre a caatinga e a Amazônia, onde hoje está localizada Teresina. Ocupa parte do Piauí e do Maranhão, possuindo uma vegetação típica, a Mata de Cocais, composta por palmeiras como a carnaúba, o babaçu, o tucum e o buriti. Provavelmente foi um cenário semelhante a este carnaubal alagado às margens da BR-343, entre Teresina e Campo Maior, que os colonizadores encontraram quando da fundação da nova Capital do Piauí, em meados do século XIX.

H. Dobal (1927-2008) foi o maior poeta teresinense contemporâneo. Dono de obra elogiada e premiada, morou em Londres, Berlim, Brasília e Teresina, todas cidades que influenciaram seu trabalho. Foi vencedor do prêmio “Jorge de Lima”, da Câmara Nacional do Livro, e membro das Academias Piauiense e Brasiliense de Letras. Expressou como ninguém a imagem do Piauí do século XX, em sua feição rural e em sua feição urbana.

Piauí State has a very large territory, with more than 250,000 square kilometers, being the third largest State of the Brazilian Northeast (even largest than the United Kingdom). Many different landscapes can be seen within its boundaries, as the savanna-like cerrados of the southern lands, the xeric shrubland and thorn forest typical of the caatinga and the mangroves of the coastline. The Middle-North is a transitional territory between the caatinga and the Amazon forest, where now is located Teresina, occupying part of Piauí and Maranhão States, forested by the so-called “Mata de Cocais”, composed of palm trees like carnauba, babaçu, tucum and buriti. In the middle of the 19th century, the settlers of the new Capital of Piauí probably found a landscape like this one, a swampy field of carnauba palm trees along the road between Teresina and Campo Maior.

H. Dobal (1927-2008) was the most important of the contermporaneous poets born in Teresina. His work was acclaimed and awarded, and he was member of several Academies of Letters. He lived in London, Berlin, Brasília and Teresina, cities that left impressions in his writings. He, like nobody else, engraved the image of Piauí of the 20th century in his books, either in its urban look or in its rural expression.

As primeiras incursões colonizadoras ao território piauiense datam de 1606, feitas por tropeiros que transitavam entre Maranhão e Pernambuco. No entanto, os primeiros habitantes do território foram os índios, diversas nações deles, destacando-se os Tremembés, que habitavam o litoral, os Gueguês (ou Gueguezes), que viviam na porção central do Estado, e os Pimenteiras, na fronteira com Pernambuco. O navegador português Nicolau de Resende, sobrevivente de um naufrágio ocorrido em 1571 e descobridor do Delta do Rio Parnaíba, foi provavelmente o primeiro homem branco a habitar o Piauí, vivendo entre os índios durante dezesseis anos. Entretanto, a convivência entre os índios e os colonizadores foi funesta para aqueles, escravizados e dizimados pelos homens brancos. Domingos Jorge Velho, paulista, e Domingos Afonso Mafrense, português, foram os desbravadores do território piauiense no final do século XVII e os responsáveis por sua colonização, feita através da criação de numerosas fazendas de gado; em suas incursões pelo Nordeste Brasileiro, entretanto, exterminaram nações indígenas inteiras. A escultura do no balão de acesso ao Centro Esportivo da Universidade Federal do Piauí, de autoria de Carlos Martins, mostrada nas duas primeiras fotos (primeira imagem, ©Marcelo Mesquita), retrata o extermínio dos índios piauienses, temática também abordada pelo notável escritor teresinense H. Dobal na obra "El Matador". Domingos Jorge Velho foi ainda o responsável pela destruição do Quilombo de Palmares, comandado pelo legendário Zumbi, em Alagoas. A terceira imagem mostra um belo edifício de estilo eclético do começo do século XX, localizado na Avenida Miguel Rosa, em Teresina, onde funcionou, durante muitos anos o Colégio Domingos Jorge Velho, recentemente restaurado e que hoje abriga o Memorial Zumbi dos Palmares. A arte do Grupo Abadá de capoeira, retratado na quarta imagem em uma apresentação no Parque Ambiental Encontro dos Rios (© Márcio Anderson), é prova da resistência e da importância da cultura negra no Piauí.

The first incursions into the territory of Piauí date from 1606, made by settlers moving from Maranhão to Pernambuco. However, the first inhabitants of the State were the Indians, being the most important the Tremembés (living along the coastline), the Gueguês (also called Gueguezes, occupying the central part of the land) and the Pimenteiras (living at the border of Piauí and Pernambuco). The Portuguese sailor Nicolau de Resende, after surviving a shipwreck in 1571, was probably the first white man to live in Piauí, residing among the Indians during sixteen years. Nevertheless, the coexistence of Indians and white men was deadly to the former, since they were made slaves and killed by the colonizers. Domingos Jorge Velho and Domingos Afonso Mafrense, the former born in São Paulo and the latter born in Portugal, have colonized most of what is today the territory of the State of Piauí during the late 17th century, settling many farms to raise livestock. However, they also slaughtered entire nations of Indians to the last man during their incursions in the Brazilian Northeast. The first and the second images show a sculpture by the artist Carlos Martins (first image, ©Marcelo Mesquita), along the access to the Sports Center of the Federal University of Piauí, which deals with the extermination of the local Indians. The famous poet H. Dobal, born in Teresina, also approaches this subject in his great work “El Matador”. Domingos Jorge Velho also exterminated the famous “Quilombo dos Palmares”, a community of fugitive slaves in the State of Alagoas, commanded by Zumbi dos Palmares, a national hero. The third image shows a nice building dating back to the early years of the 20th century, located at Miguel Rosa Avenue, in Teresina, which was the seat of “Domingos Jorge Velho School” during decades. It was recently modified to harbor the “Zumbi dos Palmares Memorial”. This presentation of capoeira by the the Abadá Group, shown in the fourth image (© Márcio Anderson), proves that the African roots are still present in the culture of Piauí.

 

A colonização do Piauí foi, ao contrário dos demais Estados nordestinos, feita do interior para a costa, o que explica a silhueta alongada de seu mapa e seu estreito litoral. O desbravamento do sertão foi feito essencialmente através da criação de gado, atividade econômica que ainda hoje é uma das principais do Estado. Após a criação da Capitania de São José do Piauí, em 1761, durante o auge do ciclo do gado, a Capital foi instalada em Oeiras (antiga Vila da Mocha), no interior do território, vila surgida a partir de uma das muitas fazendas de gado bovino da região, a Fazenda Cabrobó. O isolamento e o difícil acesso a Oeiras foram fatores determinantes para a criação de uma nova Capital em local mais propício. Inúmeras obras de arte na Região Metropolitana de Teresina fazem referência à pecuária e ao vaqueiro, símbolo do Estado, como este painel em madeira na entrada do Centro Artesanal (primeira foto), esta escultura em ferro, também localizada no Centro Artesanal Mestre Dezinho, em seu pátio interno (segunda foto) e esta indumentária típica de couro exposta no museu do Monumento à Batalha do Jenipapo, em Campo Maior (terceira imagem). O vaqueiro, aliás, foi tombado pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional como bem cultural imaterial do Brasil.

 

The colonization of Piauí State was made, unlike other northeastern Brazilian States, from the inland to the shoreline, the reason of its elongated shape and of its narrow coastline. The State was initially occupied by farmers looking for fields to raise livestock, one of the most important economic activities of Piauí until today. After the creation of the Capitany of São José do Piauí, in 1761, the Capital was settled in Oeiras (formerly called “Vila da Mocha”), a village originated from one of the many stockbreeding farms in the region, the Cabrobó Farm. Given that Oeiras was isolated and difficult to reach, a new Capital was necessary for the State to get developed. Many works of art in the Greater Teresina Area portray the cowboy (“vaqueiro”), one of the State symbols, like this wooden panel in the hall of the Handicraft Center (first image),  this iron sculpture also located in the Handicraft Center, inside its courtyard (second photo) and the typical leather clothing used by "vaqueiros" at work, exposed in the museum of the Monument to the Jenipapo Battle, in Campo Maior (third image). The iconic figure of the "vaqueiro" was recently declared part of the immaterial national heritage.

 

 

A colonização do local onde hoje se encontra Teresina começou no século XVIII. Já há registros de uma comunidade de pescadores no local em 1760, localizada próxima à confluência dos Rios Poty e Parnaíba, onde hoje se encontra o Parque Ambiental Encontro dos Rios. A povoação de pescadores cresceu e tornou-se uma vila, a Vila do Poty, que, apesar de ser o sítio primariamente imaginado para a construção da nova Capital, foi preterida por ser sujeita a enchentes (note, na primeira foto, a inundação das áreas ribeirinhas do Rio Parnaíba na grande cheia de 2008). Por este fato, a nova Capital foi construída uma légua mais acima, em meados do século XIX, inicialmente chamada de Vila Nova do Poty e posteriormente rebatizada como Teresina. Mesmo após quase 250 anos, a profissão subsiste, com pescadores tirando seu sustento das águas em uma bucólica atividade à margem da cidade grande. As canoas retratadas na segunda imagem foram fotografadas em um fim de tarde na margem esquerda do Rio Poty. No local da antiga Vila do Poty, hoje se localiza o bairro Poty Velho, tradicional reduto de pescadores, oleiros e artesãos. Este pórtico, mostrado na terceira foto, marca a entrada do Pólo Cerâmico do bairro.

 

There were signs of human presence in the place where Teresina is now located dating back to the 18th century. Historical data indicate that since 1760 a small fishermen dwelling was present there, nearby to the confluence of Poty and Parnaíba Rivers, where is now located the Urban Park of the Meeting of the Rivers. The fishermen dwelling grew up to a village called “Vila do Poty” that was, however, disregarded as the starting point for the novel Capital because of constant floods (note the inundation of the riverbanks of the Parnaíba River during the flood of 2008 in the first image); the new city was built three miles away, in the middle of the 19th century, in a higher position, being formerly called “Vila Nova do Poty” and soon re-baptized as Teresina. The fishermen remain active even after 250 years, making their lives from the rivers in a bucolic kind of work, different from the usual occupations of big city life. These fishing canoes, shown in the second image, were shot by late afternoon, in the left banks of Poty River. The place where the old "Vila do Poty" was formerly located is now the Poty Velho District, traditionally known by their fishermen, ceramists and craftsmen. This portico, seen in the third image, identifies the entrance of the local nucleus of ceramic handicraft.