“Ê, São João, ê, Pacatuba

Ê, Rua do Barrocão

Ê, Parnaíba passando

Separando a minha rua

Das outras, do Maranhão”

Torquato Neto – “A Rua”

 

Eh, São João, eh, Pacatuba

Eh, Barrocão Street

Eh, Parnaíba River flowing

Separating my street

From the others, on the opposite side, in Maranhão”

Torquato Neto – “A Rua”

Este local, no coração do que hoje é a Praça Marechal Deodoro (também conhecida como Praça da Bandeira), no Centro Histórico de Teresina, foi o núcleo de povoamento inicial da nova Capital. Inicialmente chamada de Largo do Amparo (em referência à Igreja Matriz de Nossa Senhora do Amparo, situada às margens da praça), era inicialmente um descampado ao redor do qual foram sendo construídos os prédios públicos essenciais ao funcionamento da Província: Mercado, Igreja, Assembléia, Sede do Governo e Tesouro Provincial. Nesta imagem pode-se ver à esquerda o busto do Marechal Deodoro, que empresta seu nome ao logradouro, e parte do Mercado Central. Na alameda central, vê-se o Marco de Fundação da Cidade ao fundo e, à direita, a Prefeitura Municipal.

These grounds, where today is located the Marechal Deodoro Square (also known as Flag Square), on the very heart of the historical site of Teresina, were the initial nucleus of population of the novel Capital. Formerly called Amparo Square (due to the Parish Church of Our Lady of Amparo, located along its east side), it was initially nothing but a clear field around which the main buildings of the new city were built, necessary to the Province to work properly: Market, Church, Provincial Assembly, the Seat of the Government and the Provincial Treasury. In this image one can see at left the bust of Marshal Deodoro (that gives his name to the square) and part of the Central Market. In the end of the central alley is located the mark of foundation of the city and, at right, the City Hall.

José Antônio Saraiva foi um dos homens mais proeminentes do Segundo Império, tendo sido Ministro de Estado, Deputado, Senador e Presidente de várias Provínicias, além de amigo pessoal do Imperador Pedro II. Assumiu a presidência da Província do Piauí em meados do século XIX e foi o grande artífice da construção de Teresina, com apenas 27 anos de idade. Homem culto e de visão, percebeu que a localização da primeira Capital, Oeiras, longínqua e de difícil acesso, e a ameaça da ascensão econômica da cidade de Caxias, no leste da Província do Maranhão, eram ameaças ao desenvolvimento do Piauí. Urgia instalar a Capital em local mais estratégico, a meio-caminho entre o litoral e o sertão, a despeito da forte resistência dos Oeirenses. Em discurso histórico na Assembléia Provincial, afirmou que a mudança daria ao Piauí “uma Capital mais rica, mais cômoda, mais civilizada e mais conveniente à direção dos negócios públicos”. Teresina deu o nome de Saraiva à segunda maior praça da cidade, onde se localiza sua estátua, vista nestas fotos, construída no centenário da cidade, em 1952.

José Antônio Saraiva was one of the most prominent men of the Second Empire. He was Senator, Congressman, President of several Provinces, Minister and close friend of the Emperor Pedro II himself. He was the President of the Province of Piauí in the middle of the 19th century and conducted the construction of Teresina, with only 27-year-old. Being an intelligent and wise man, he noticed that Oeiras, the Capital at that time, was distant and difficult to reach, and that Caxias, a city situated in the eastern Maranhão, was arising as a promising trading center, menacing the development of Piauí. It was urgent to transfer the Capital to a more appropriate location, between the countryside and the coast, despite the strong resistance of the people of Oeiras. In an unforgettable speech at the Provincial Assembly, he stated that the change would give to Piauí a “richer, cozier and more civilized Capital City, more convenient to the State Businesses”. Teresina gave the name of Saraiva to one of its biggest squares, where his statue (which can be seen in these images, inaugurated in 1952, during the celebration of the city centennial) is located.

Teresina é, desde seu nome (uma forma sincopada do nome da Imperatriz Teresa Cristina, originalmente grafado Theresina), um completo produto do Segundo Império (cujo Brasão é mostrado na primeira imagem) e do sentimento de modernização de que o mesmo foi sempre imbuído. A oposição dos Oeirenses à mudança da Capital foi feroz, comitivas foram ao Rio de Janeiro fazer gestões junto ao Imperador, pressões da aristocracia e de grandes proprietários rurais foram articuladas. Entretanto, Pedro II (cujo emblema, que pertencia ao Paço Imperial, no Rio de Janeiro, é visto na segunda foto) estava inclinado a ceder a Saraiva. Conta Paulo José Cunha em sua “Grande Enciclopédia Internacional de Piauiês” que Oeirenses levaram uma garrafa de água barrenta do Rio Parnaíba ao Imperador, tentando demonstrar a suposta insalubridade do local que Saraiva propunha para a nova Capital. Este, em sua sabedoria, deixou os reclamantes falarem bastante até que o barro sedimentasse; tomou então um copo da água limpa que sobrenadava e teria dito: “mais saborosa que esta, nunca bebi”. O povo de Teresina homenageou o Imperador batizando com seu nome a praça mais movimentada do Centro da Cidade.

Teresa Cristina Maria de Bourbon nasceu em Nápoles, na Itália, em 14 de março de 1822, e faleceu no exílio em 28 de dezembro de 1889, na cidade do Porto, em Portugal. Foi a Imperatriz-Consorte do Brasil durante o Segundo Império, casando-se com Pedro II em 4 de setembro de 1842. Em sua homenagem, por ter sido uma das defensoras do projeto de mudança da Capital do Piauí junto ao Imperador, Saraiva chamou a cidade – que ela não chegou a conhecer, até então denominada Vila Nova do Poty – de Teresina (diminutivo de Teresa em italiano). Em 1975, foi construído um monumento em homenagem à Imperatriz, localizado no Centro Cívico (terceira imagem).

Teresina is, from its name (a simplified form for the name of the Empress Teresa Cristina, formerly spelled Theresina), completely derived from the Second Empire (whose coat of arms is shown in the first image) and all of the innovative and modernizing spirit inherent to this period. The aristocracy and the rural oligarchy of Oeiras made strong efforts to avoid the loss of the status of Capital. However, Pedro II was inclined to Saraiva’s ideas. Paulo José Cunha tells us in his work “Grande Enciclopédia Internacional de Piauiês” that a group of citizens from Oeiras brought to the Emperor a bottle filled with muddy waters from Parnaíba River, trying to convince him about the insalubrity of the place chosen to build the new Capital City. The Sovereign, wisely, let the visitors make their claims during a long time, until the sediment was totally laid on the bottom of the bottle; so he took a glass of the clean water and declared: “this is the best tasting water I have ever drank”. As a tribute to the great Emperor, Teresina gave his name to one of its most important squares. In the second image, one can see the emblem of the Pedro II, formerly an ornate of the walls of the Imperial Palace, in Rio de Janeiro.

Teresa Cristina Maria de Bourbon was born in Naples, Italy, in March 14, 1822, and died in exile in the city of Porto, Portugal, in December 28, 1889. She was the consort Empress of the Brazilian Empire, getting married with Pedro II in September 4, 1842. As a proof of reverence to her, because of her position in favor of the construction of a new Capital for Piauí, Saraiva gave the city – that the Empress never knew in person – the name Teresina (a familiar name for Teresa in Italy), instead of the provisional denomination “Vila Nova do Poty”. A monument was built in her honor in 1975, in the Civic Center of the City (third image).

Teresina foi a primeira Capital planejada do país, fundada em 16 de agosto de 1852. Já nasceu moderna, antecedendo Capitais planejadas de outros Estados (como Aracaju, Belo Horizonte, Goiânia e Palmas) e a própria Capital Nacional, Brasília. O sítio escolhido por Saraiva para construir Teresina era uma antiga fazenda de gado, em um local conhecido como Chapada do Corisco, devido à grande incidência de descargas atmosféricas observada nos meses chuvosos – que ainda hoje ocorre, uma das maiores do mundo. Seu traçado urbano original, com ruas que se cruzavam em ângulo reto, foi projetado pelo Mestre-de-Obras português João Isidoro França e pelo próprio Saraiva. Este traçado tinha em 1860 cerca de um quilômetro de extensão no sentido norte-sul, estendendo-se da Praça do Quartel do Batalhão (atual Estádio Municipal Lindolfo Monteiro) até a Rua do Barrocão (atual Avenida José dos Santos e Silva), enquanto que no sentido leste-oeste as casas iniciavam-se na margem do Rio Parnaíba e terminavam pouco além das atuais Praças Saraiva e Marechal Deodoro, as únicas existentes naquela época. A Rua Pacatuba, citada acima no poema “A rua”, de Torquato Neto, é a atual Rua São João, que termina às margens do Parnaíba e na qual o poeta cresceu.

Estas fotos aéreas destacam o Centro Histórico da Capital e suas grandes praças, com o Rio Parnaíba em primeiro plano, separando Teresina da Cidade de Timon, no Estado do Maranhão, e o Rio Poty mais ao fundo. Esta localização estratégica, limitada por dois rios navegáveis, situada ao longo da estrada que ligava Oeiras ao litoral e próxima da então florescente Caxias, foi a razão geográfica que fez com que Saraiva a escolhesse para sede da nova Capital. Note que o traçado axadrezado das ruas vai se perdendo nos bairros mais distantes do Centro, devido ao crescimento da Cidade.

Teresina was the first planned Capital City in Brazil, founded in August 16, 1852. It was modern since its birth, preceding planned Capital Cities of other States (for instance, Aracaju, Belo Horizonte, Goiânia and Palmas) and the Brazilian Capital itself, Brasília. The site chosen by Saraiva to build Teresina was an old livestock farm located in a place known as “Chapada do Corisco” (Lightning Plateau, in a free translation), known by this name because of the high incidence of atmospheric discharges observed during the rainy months – one of the highest in the whole world. Its original trace was designed by the Portuguese Foreman João Isidoro França and by Saraiva himself, with streets crossing in straight angles. In 1860, the urban area of Teresina spanned one kilometer from south to north, beginning on the Square of the Battalion Headquarters (where now is located the Lindolfo Monteiro Stadium) and ending at the Barrocão Street (the José dos Santos e Silva Avenue of our days). From east to west the houses spanned the area in between the margins of the Parnaíba River and the borders of the contemporary Marechal Deodoro and Saraiva Squares, the only ones existent at that time. Pacatuba Street, cited above in the verses of the poem “A Rua”, by Torquato Neto, is today called São João Street, ending at the margin of the Parnaíba River and which was the residence of the poet during his childhood.

These aerial views show the Downtown and its large squares, situated by the Parnaíba River (seen in first plane, separating Teresina from the City of Timon, in the State of Maranhão), and the Poty River in second plane. This strategic location, by two navigable rivers, along the road from Oeiras to the coast and nearby to the florescent city of Caxias, was the main reason for Saraiva to chose this place to build the novel Capital. Note that the checkered trace of the streets is not seen in the more distant districts, because of the city growth.

O Marco de Fundação da Cidade (primeira imagem) encontra-se na Praça Marechal Deodoro, em frente à Igreja Matriz de Nossa Senhora do Amparo. É uma coluna de mármore que chegou a Teresina em barco a vapor, erigida em 21 de agosto de 1859, com inscrições em latim registrando a fundação da Cidade e seu agradecimento ao Conselheiro Saraiva, seu fundador (segunda imagem). Em um lado se lê: “Josephus Antonius Saraiva hanc urbem condit Anno D. Ni MDCCCCLII” (José Antônio Saraiva fundou esta cidade no ano do Senhor de 1852), e no oposto está escrito: “Piauhyenses grati hoc fecerunt Anno D. Ni MDCCCLVIII” (Os piauienses, agradecidos, ergueram este monumento no ano do Senhor de 1858).

O Brasão de Armas de Teresina também homenageia o fundador da Capital (terceira foto). É um escudo do tipo samnítico (com cantos inferiores arredondados e uma ponta no centro de sua base), tendo ao centro as Armas da família Saraiva sobre um fundo de prata. Duas âncoras lembram que a cidade foi fundada em função da navegabilidade dos Rios Parnaíba e Poty, e a porção inferior do escudo, em azul ondulado de prata, representa o Rio Parnaíba em si. Dois remos negros cruzados simbolizam a navegação fluvial, meio de transporte da Província à época da fundação da cidade e uma faixa vermelha traz em letras de prata a inscrição “Teresina” e a data da fundação, 16 de agosto de 1852. Sobre o conjunto, uma coroa mural de oito torres de ouro classifica a cidade como de primeira grandeza (Capital). (Cortesia da Fundação Cultural Monsenhor Chaves, da Prefeitura de Teresina).

O Brasão de Armas do Estado, visto na última imagem, em close da fachada do Centro Artesanal, foi criado durante as comemorações do seu centenário de independência. Sobre o escudo estão as três palmeiras-símbolo do Estado, a carnaúba, o buriti e o babaçu, bem como três peixes de prata que representam os Rios Parnaíba, Canindé e Poty. Sete faixas azuis representam os afluentes do Parnaíba. Um ramo de algodão e um de cana-de-açúcar representam a produção agrícola do Piauí no começo do século XX. A legenda do Estado é “Impavidum ferient ruinae” (“As ruínas o ferirão sem intimidá-lo”), retirada de uma ode do poeta latino Horácio.

This marble column (first image) is a landmark, the ground zero of Teresina, pointing the place where it was founded, inside Marechal Deodoro Square and in front of the Mother Church of Our Lady of Amparo. It was brought to Teresina by steamboat and settled in August 21, 1859, with latin inscriptions registering the city foundation and expressing gratitude to Imperial Councilman Saraiva, the founder (second photo). In one side is written: “Josephus Antonius Saraiva hanc urbem condit Anno D. Ni MDCCCCLII” (José Antônio Saraiva founded this city in the year of our Lord of 1852), and, on the opposite side, can be read: “Piauhyenses grati hoc fecerunt Anno D. Ni MDCCCLVIII” (The grateful people of Piauí built this monument in the year of our Lord of 1858).

The Coat of Arms of the City also makes reference to the city founder (third image). It is a samnitic shield (showing rounded lower corners and a small point in the center base), with the Saraiva Family Crest in the center of a silver field. Two anchors recall the navigability of Parnaíba and Poty Rivers, the reason of choosing that place to build the novel Capital City. The lower portion of the shield, in blue with silver waves, represents the Parnaíba River itself. Two crossed black oars symbolize the fluvial navigation, the main kind of transportation during the Provincial times, and a red banner has written in silver letters the word “Teresina” and its date of foundation, August 16, 1852. Surmounting this set, a crown made of eight golden towers represents the city as a first-class one (Capital City). This image is a courtesy of Monsenhor Chaves Cultural Foundation, an organ of the City Government.

The State Coat of Arms was created during the festivities of the centennial of its independence (the last image is a close-up of the façade of the Handicraft Center). Over the shield, one can see the three palm trees which symbolize the state, namely carnauba, buriti and babaçu, as well as three silver fishes representing Parnaíba, Canindé and Poty Rivers. Seven blue stripes stand for the seven tributaries of Parnaíba River. Branches of cotton and sugar cane represent the agriculture of the early years of the 20th century. The State legend is “Impavidum ferient ruinae” (“The ruins will strike him unafraid”), chosen from an ode of Horace.

O Cemitério São José é o mais antigo da cidade, fundado em 1862. Embora não tão charmoso ou bem-cuidado como os Cemitérios de La Recoleta, em Buenos Aires, ou Père Lachaise, em Paris, um passeio por suas alamedas conta muito da história de Teresina. Lá existem túmulos de antigos artistocratas, ricos comerciantes, políticos famosos, artistas e anônimos, gente que, cada um a seu modo, ajudou a fazer a grandeza da Capital nestes últimos 150 anos. Nas fotos acima se vêem detalhes de um dos mais antigos mausoléus do cemitério, da segunda metade do século XIX, em estilo clássico, feito em mármore e localizado próximo aos portões de entrada.

St. Joseph Cemetery is the oldest in town, founded in 1862. Although not as charming or well-preserved as the famous La Recoleta, in Buenos Aires, or Père Lachaise, in Paris, a stroll around its alleys tells much of Teresina’s history. Graves of old-time aristocrats, wealthy traders, famous politicians, artists and anonymous people can be seen, people that, each one in each own way, helped to build the greatness of Teresina in the last 150 years. The images above show details of one of the oldest mausoleums of the cemetery, of classical style, erected in the late 19th century, made in marble and situated near to the entrance gates.