“No cemitério de Batalhão os mortos do Jenipapo

Não sofrem chuva nem sol; o telheiro os protege

Asa imóvel na amplidão campeira.”

Carlos Drummond de Andrade – “Cemitérios”

 

“The dead men of the Jenipapo Battle, in their cemetery

Do not have to stand the effects of the rain or of the sun; the roof covers them

Motionless wing over the countryside vastness”

Carlos Drummond de Andrade – “Cemitérios”

 

Pouco menos de 30 anos antes da fundação da nova Capital, um dos eventos mais importantes da História do Piauí teve lugar a alguns quilômetros do que hoje é a Região Metropolitana de Teresina. Em 13 de março de 1823, tropas portuguesas leais à coroa e um exército improvisado composto por vaqueiros e lavradores travaram sangrenta batalha às margens do Riacho Jenipapo, no município de Campo Maior, decisiva para a consolidação da Independência do Brasil e da unidade nacional. Apesar de o centro-sul do País ter aderido prontamente à Independência declarada por D. Pedro I em 7 de setembro de 1822, a parte setentrional da América Portuguesa teve que ser conquistada com sangue, e a Batalha do Jenipapo, juntamente com a campanha baiana, foram as mais notáveis manifestações do heroísmo do Nordestino brasileiro.

One of the most important events of the History of Piauí State took place just some miles away from the contemporary Greater Teresina Area less than 30 years before the foundation of the novel Capital. In March 13, 1823, Portuguese troops and an improvised army made of cowboys and farmers were involved in a bloody battle by the Jenipapo Creek, in Campo Maior, which was crucial to consolidate the Brazilian Independence and the National Unity. Although Central and Southern Brazil had promptly accepted the Declaration of Independence made by D. Pedro I at September 7, 1822, the Northern portion of the Portuguese America had to be conquered with blood. The Jenipapo Battle and the Bahia Campaign were the most notable demonstrations of the heroic temper of the people of Brazilian Northeast.

 

 

O Piauí declarou-se independente de Portugal em 24 de janeiro de 1823, em Oeiras, que era a Capital Provincial. O Comandante Militar português João José da Cunha Fidié, experimentado oficial, veterano das guerras Napoleônicas, encontrava-se então em Parnaíba, visando sufocar o movimento de Independência naquela localidade. Notificado da declaração separacionista na Capital, marchou de volta a Oeiras com uma tropa de 1100 homens, bem-armados, munidos de cavalaria e artilharia, determinado a manter o Piauí como colônia portuguesa em território americano. Os revoltosos entrincheiraram-se então ao longo do Riacho Jenipapo, quase seco devido à intensa estiagem daquele ano, para interceptar o exército português. Os líderes do movimento em Campo Maior, entre eles o Alferes Leonardo das Dores Castelo Branco (herói estadual representado neste busto, visto na primeira imagem, localizado vizinho ao campo de batalha e em frente ao Monumento que hoje lá existe - segunda e terceira fotos), arregimentaram cerca de dois mil homens, piauienses e cearenses, sem treinamento militar e armados apenas do sentimento de liberdade, de velhas espadas, armas brancas, paus, pedras e algumas espingardas usadas.

Piauí declared its Independence from Portugal in January 24, 1823, in Oeiras, the Provincial Capital at that time. The Military Governor João José da Cunha Fidié, an experienced official, veteran of the Napoleonic campaigns, went to Parnaíba to detain the Independence movements at that village. Notified of the facts occurring in Oeiras, Fidié marched back to the Capital leading an army of 1,100 men, with cavalry and artillery units, determined to keep Piauí as a Portuguese Colony in America. The revolutionaries mounted camp along the Jenipapo Creek, almost empty due to the severe dry season of that year, intending to intercept the Portuguese. The leaders of the riot in Campo Maior, one of them the Second Lieutenant Leonardo das Dores Castelo Branco (a State hero here shown in this bust [first image], situated near the battlefield [second and third photos]), grouped close to 2,000 citizens, from Piauí and Ceará States, deprived of military training and armed only with improvised weapons and with the desire of freedom.

 

O combate teve início às 9 horas da manhã. A superioridade das armas e do treinamento militar da tropa portuguesa logo se fez sentir, repelindo as investidas dos brasileiros e devastando as linhas dos inimigos. Entretanto, os patriotas resistiram a cinco horas de fuzilaria sob um sol inclemente, levando a baixas no exército colonialista e destruindo boa parte de seu poder de fogo. Estima-se o número de mortos entre os soldados portugueses em torno de 80, enquanto o número de brasileiros abatidos situa-se entre 200 e 400. As sepulturas dos combatentes, espalhadas pela campina em que foi travada a batalha, são anônimas, marcadas por cruzes de madeira e amontoados de pedras, conforme se vê na imagem panorâmica acima. Não houve vencedores, e ambos os exércitos retiraram-se do campo de batalha esgotados.

The battle began at 9 a.m., lasting for five hours under a torrid sun. The superiority of the weapons and of the military training of the Portuguese troops soon prevailed, forcing the patriots to retreat at each incursion and devastating the enemy lines. However, the Brazilian resisted as long as they could, imposing heavy losses to the firepower of the Europeans and producing many casualties among them. Historians indicate that around 80 Portuguese and 200 to 400 Brazilian lost their lives during the combat. The graves of the combatants, scattered around the field where the battle took place, are anonymous, indicated only by the presence of wooden crosses and piled stones, as one can see in the panorama image above. There were no winners, and both troops retired from the battlefield completely exhausted.

 

 

Embora os combatentes da Batalha do Jenipapo não tenham derrotado os portugueses, a Guerra da Independência foi vencida pelos piauienses. Durante a retirada das tropas da Coroa, um destacamento de soldados da cidade cearense de Sobral atacou as tropas inimigas e lhes tomou parte do armamento e da munição. Este fato, aliado às baixas sofridas, forçou o Comandante Português a abandonar o Piauí e refugiar-se em Caxias, no vizinho Maranhão. Em 31 de julho de 1823, Fidié e suas tropas foram cercados por piauienses, maranhenses e cearenses e forçados a render-se. Estava consolidada a Independência do Brasil e preservada a unidade nacional, pondo fim à pretensão portuguesa de manter uma colônia no norte do País. Fidié foi preso, mandado ao Rio de Janeiro e deportado para Portugal, onde foi recebido como herói e condecorado com a mais alta e antiga honraria militar do País, a Ordem de Avis, em reconhecimento ao grau de dificuldade que lhe opuseram os piauienses na campanha da Independência. Acima, detalhes do cemitério, do espelho d'água e das escadarias do Monumento erguido ao lado do campo de batalha.

Even though the patriots that fought the Jenipapo Battle did not defeated the Portuguese, the people of Piauí eventually won the Independence War. During their retreat, the Royal troops were attacked by a squad of soldiers from the city of Sobral and had fire weapons and ammunition taken away. This fact and the losses suffered by the Portuguese troops during the battle forced Fidié to abandon Piauí and look for shelter in Caxias, situated in the nearby province of Maranhão. In July 31, 1823, Fidié was surrounded by soldiers of Piauí, Maranhão and Ceará and finally surrendered, being taken under arrest to Rio de Janeiro and deported to Portugal. The Brazilian Independence was consolidated and the unity of the country as a territory was maintained. Fidié was sent away as a deportee and acclaimed as a hero in Lisbon, receiving the highest and oldest military honor of Portugal, the Military Order of Avis, as an acknowledgement to the tough war that he faced against the patriots of Piauí. Above one can see details of the cemetery, the water mirror and the stairway of the Monument erected by the battlefield.

Os anônimos heróis brasileiros, entretanto, tiveram de esperar muito pelo digno reconhecimento de seu feito memorável. Apenas em 1923, no centenário da batalha, uma primeira homenagem foi prestada, com a construção de uma simples coluna comemorativa no cemitério dos combatentes. Entretanto, em 1973, 150 anos após o épico combate, um grande monumento foi erguido ao lado do campo de batalha, inaugurado com honras militares. Em seu interior, textos em placas metálicas e peças de artilharia contam a História para as gerações seguintes, informando aos visitantes que aquela campina e os mortos que nela repousam são patrimônio do Brasil.

The anonymous Brazilian heroes, instead, had to wait very much longer for an adequate acknowledgement of their memorable achievement. Only in 1923 there was a first step in this direction, with the construction of a small commemorative column in the cemetery of the combatants, to celebrate the centennial of the battle. Nevertheless, in 1973, 150 years after the epic combat, a great Monument was built by the battlefield, inaugurated with a military ceremony. Inside the building, texts written in metal slabs and artillery pieces tell the History to the upcoming generations, informing the visitors that the nearby field and the dead men that rest there are sacred to the Brazilian memorabilia.

O Exército Brasileiro demonstrou sua gratidão aos mortos na Batalha do Jenipapo concedendo denominações históricas e estandartes relacionados ao combate às duas principais unidades militares de Teresina. O 2º Batalhão de Engenharia de Construção é conhecido como “Batalhão Heróis do Jenipapo”, enquanto o 25º Batalhão de Caçadores, mostrado na foto acima, tradicional unidade de infantaria e legítimo herdeiro dos combatentes de 1823, foi denominado “Batalhão Alferes Leonardo de Carvalho Castelo Branco”, em homenagem ao heróico militar que organizou a resistência popular ao exército português. Na praça em frente ao quartel, uma placa de bronze cita os nomes de outros heróis piauienses, os veteranos que serviram no teatro de operações da Segunda Guerra Mundial.

The Brazilian Army demonstrated its gratitude to those who died in the Jenipapo Battle giving historical denominations and flags related to this combat to the main military units in Teresina. The 2nd Engineer Battalion (Construction Engineering) was called “Jenipapo Heroes”, and the 25th Battalion of Hunters (Infantry), shown in the panorama image above, the natural successor of the combatants of 1823, was called “Battalion Second Lieutenant Leonardo de Carvalho Castelo Branco”, a tribute to the heroic military who organized the resistance to the Portuguese Army. In the square in front of this Battalion, a bronze plate lists the heroes of Piauí in another conflict, the veterans who served in the theater of operations of World War II.